21
jun
08

O Valor da Tristeza: A infelicidade é necessária

Escolhi este post por ter sofrido de depressão, por ter sofrido com a vida, por na infância ter sido uma criança sensível e chorona, na adolescência tive pânico e por sofrer de ansiedade a vida toda. Eu já fiz terapia em grupo, na Marinha do Brasil! Já tomei remédio! Mas somente para combater a ansiedade, chamados de ansiolíticos. Nunca tomei, nunca pedi, nunca me receitaram, apesar de toda a tristeza que eu sentia, medicamento antidepressivo. Porém, o motivo principal desde post é: Ter encontrado uma jovem que tomava medicamento antidepressivo e sua médica achava que ela não precisava mais do medicamento; ela não tem acompanhamento psicológico; ela não querer um acompanhamento psicológico; tem preconceito quanto a psiquiatra; e o medicamento antidepressivo não está sendo receitado por um (psiquiatra); essa jovem não querer parar de tomar o medicamento e acha que depende do medicamento para se sentir melhor. Mesmo não precisando mais dele.

O valor da tristeza

Um estudo questiona a eficácia dos antidepressivos. E novas pesquisas mostram que a infelicidade pode ser boa para nós.

Quando foi lançado nos Estados Unidos, em 1987, o mais famoso medicamento antidepressivo do mundo chegou a ser apontado, pela revista Scientific American, como um “anjo que ilumina as trevas da alma”. O Prozac foi o primeiro de uma série de remédios que visam alterar o nível de serotonina, uma substância química do cérebro relacionada à sensação de prazer. Com as mudanças das últimas duas décadas no modo como a ciência médica encara a depressão, esses medicamentos se tornaram campeões de venda.

O número de pílulas consumidas no mundo inteiro pulou de 4 bilhões, em 1995, para 10 bilhões, em 2004, um aumento de 150%. No Brasil, também se registrou um salto. Há três anos, 20,6 milhões de comprimidos foram vendidos no país. No ano passado, foram 24,4 milhões (um aumento de 18,5%).

Por isso, um estudo lançado na semana passada na Public Library of Science Medicine (Biblioteca Pública da Ciência Médica) causou grande impacto. O pesquisador Irving Kirsch, da Universidade de Hull, no Reino Unido, e seus colegas revisaram os estudos clínicos de vários antidepressivos e concluíram que, nos casos de depressão leve, seus efeitos não são melhores que os de placebos. (Os placebos, pílulas sem substância ativa, são usados em um grupo separado de pacientes para avaliar quanto da melhora se deve ao remédio e quanto apenas ao efeito psicológico de ser atendido e medicado.)

Kirsch utilizou estudos que a indústria não havia divulgado. Os laboratórios foram obrigados a liberá-los pela Food And Drug Administration, o órgão regulador de medicamentos dos Estados Unidos. A indústria rebateu a conclusão, dizendo que Kirsch analisou poucos estudos. Além disso, outro estudo, lançado também na semana passada pelo Escritório Nacional de Pesquisas Econômicas dos Estados Unidos, afirma que o uso de antidepressivos ajuda a diminuir a taxa de suicídios.

Essa discussão provavelmente terá vida longa. E dá força a uma questão: Por que buscamos com tamanha avidez a felicidade? Boa parte do sucesso dos remédios está não numa epidemia de depressão, como apontou o psiquiatra Derek Summerfield em um recente artigo no Journal of the Royal Society of Medicine, mas numa “epidemia de receitas de antidepressivos”.

Os antidepressivos são um avanço extraordinário, diz o psiquiatra paulista Renato Del Sant, diretor do Hospital Dia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Mas, para receitá-los, é preciso uma avaliação longa e precisa. Hoje, os psiquiatras estão mais preocupados em acompanhar os avanços da neurociência do que em se debruçar no histórico do paciente, muitas vezes até por falta de tempo. Por isso, o diagnóstico está cada vez mais superficial.

Nessas horas, confunde-se tristeza com depressão. E dá-lhe remédio. É como se quiséssemos abolir de nossa vida toda e qualquer contrariedade. “Eu não tenho problemas de depressão, apenas de mau humor e timidez“, diz um internauta da comunidade Confissões de um Prozaquiano, que tem 160 membros no site de relacionamento Orkut. “Uso pelo estresse do dia-a-dia mesmo. É um santo remédio.” O próprio Del Sant é um exemplo contra o abuso. No ano passado, uma de suas filhas, Carlota, sofreu um acidente de trânsito e está em coma até agora. Já passou por 16 cirurgias. “Eu, minha mulher Solange, e minha outra filha, Lorena, estamos profundamente tristes. Muitas vezes, choramos. Sentimos falta da nossa Carlota. Mas não estamos depressivos.”

Assustado com a enorme indústria que se formou em torno de nossa necessidade de ser felizes acima de tudo, um dos pioneiros do estudo da felicidade, o psicólogo americano Edward Diener – por muito tempo alcunhado de Doutor Felicidade – voltou atrás. Não à toa, seu próximo livro, em parceria com o filho, Robert Biswas-Diener, terá o título de Rethinking Happiness (Repensando a Felicidade). Diener não renega sua tese central, de que as pessoas felizes vivem mais (por ter sistemas imunes mais fortes) e são mais bem-sucedidas. Mas ele aprofundou suas pesquisas. Em geral, os estudos sobre o tema comparam pessoas felizes com pessoas infelizes. Desta vez, Diener comparou pessoas felizes e pessoas extremamente felizes. Aí, o resultado é outro. Os extremamente felizes vivem menos que os moderadamente felizes, e são menos bem-sucedidos.

Sua conclusão: há um nível de felicidade ótimo, além do qual ela se torna mais prejudicial que benéfica. Segundo ele, numa escala de 0 a 10, sendo 0 o sujeito miserável e 10 a pessoa inabalavelmente contente, o melhor é uma nota 8, nível médio de felicidade. Ele garante uma existência aprazível e traz uma margem de insatisfação que evita a letargia.

Como diz Diener, há uma lista enorme de pessoas que querem que você seja mais feliz – não importa quanto você já seja. Essa lista inclui os ativistas da psicologia positiva, uma corrente que se tornou preponderante nos Estados Unidos no fim da década de 90 e afirma que, em vez de apenas curar doenças, a medicina da mente deve tratar de elevar nosso bem-estar. Também inclui os autores de livros com receitas para sermos mais contentes, os políticos em quem você votou (porque a probabilidade é que os reeleja), os profissionais de auto-ajuda, os técnicos de laboratórios que buscam drogas cada vez mais eficazes para combater a tristeza. Até sua mãe, “porque ela o ama e provavelmente se sentirá um fracasso se você for uma pessoa infeliz“. Há, no entanto, uma corrente cada vez mais vigorosa contra essa indústria da felicidade.

Ela inclui quatro vertentes de combate:

1. Felicidade tem limite


Ser feliz demais não é bom. O contentamento em excesso torna as pessoas menos capazes, menos saudáveis e menos atentas a riscos.

Nesse campo estão os argumentos apresentados por Diener: ser feliz demais não é bom. O contentamento em excesso torna as pessoas menos capazes, menos saudáveis, menos atentas a riscos. Além do pragmatismo de Diener, há uma questão de essência. “Cedo ou tarde na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável”, escreveu o escritor italiano Primo Levi, um sobrevivente de um campo de extermínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial. “Poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza, eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer ‘infinito’.”

Há ainda uma terceira forma de entender os limites da felicidade. Só conseguimos ter a percepção de um sentimento em comparação com outros estados de ânimo. Como demonstram vários estudos, é a variação do humor que nos causa espasmos de alegria ou de tristeza. “Felicidade em excesso é indesejável, porque leva a uma capacidade menor de apreciá-la”, diz o historiador inglês Stuart Walton, autor de Uma História das Emoções, publicado no ano passado no Brasil. No livro, Walton examina as emoções que considera primordiais (como medo, raiva, tristeza e felicidade) e as relaciona à vida moderna. “Se você tem algo o tempo todo, não pode dizer se aquilo é bom ou ruim”, diz. “É preciso descartá-lo para saber se a tal coisa lhe oferece ganhos ou perdas.” Portanto, quem diz que é 100% feliz pode não estar falando a verdade. Felicidade, por definição, não é um estado de espírito permanente. Fosse assim, as pessoas seriam mais fortes na vida.

“A felicidade pode chegar com um amor, com uma conquista, com um fato que transformou de maneira positiva o indivíduo”, diz Walton. “Mas ela não fica para sempre. De uma hora para outra, pode e provavelmente vai partir.” Assim como a infelicidade.

2. Sem obstáculos, não há vitória


Pessoas que passam por grandes traumas, como a perda de um ente querido, aprendem a valorizar as coisas que realmente importam.

Uma segunda defesa da tristeza pode ser resumida pelo famoso ditado do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: “O que não me mata me torna mais forte”. Ele aponta para o valor da adversidade. Como disse Paulo, em sua Carta aos Romanos: “O sofrimento produz resistência, a resistência produz caráter e o caráter produz a fé”.

Algumas pessoas que passam por grandes traumas, como a perda de um ente querido, relatam que se tornaram mais completas depois de passar pela experiência, afirma o psicólogo Jonathan Haidt, da Universidade de Virgínia, nos EUA, em seu livro The Happiness Hypothesis (A Hipótese da Felicidade). “Quem passa por episódios traumáticos aprende a se conhecer melhor e passa a valorizar as coisas que realmente têm importância”, escreveu Haidt. Elas dão mais valor à amizade, à família, ao tempo livre, apreciam o que têm e entendem melhor seus limites.

“Só quem vive emoções profundas e passa pela dor e pelo sofrimento é capaz de se realizar na plenitude. O homem é um ser ambíguo”, diz o filósofo brasileiro Franklin Leopoldo e Silva, que no ano passado publicou um livro chamado Felicidade – Dos Filósofos Pré-Socráticos aos Contemporâneos.

Não é por algum ingrediente precioso que o sofrimento molda o caráter. Para Haidt, isso acontece porque nós somos seres viciados em contar histórias. O que sabemos sobre nós mesmos é um relato que continuamente reescrevemos, escolhendo o que lembrar do passado e o que projetar para o futuro. As adversidades nos ajudam a criar histórias melhores. (Ou você acha que a Branca de Neve seria um bom conto se a bruxa nunca a tivesse envenenado? Hamlet teria feito sucesso se não vivesse atormentado pelo drama do assassinato de seu pai?)

É claro que os traumas, assim como podem “purificar”, podem matar. Ou estragar uma vida inteira. Crianças são especialmente suscetíveis. Algumas pesquisas mostram que a melhor época para enfrentar um grande desafio na vida é a que vai do início da adolescência até os 20 e poucos anos – quando é assim, a probabilidade de o episódio servir de estímulo, em vez de fator de paralisia, é maior.

Os estudos modernos estão de acordo com as teses levantadas há meio século por um dos maiores estudiosos de mitologia do mundo, o americano Joseph Campbell. No livro O Herói das Mil Faces, ele descreve um esquema comum a quase todos os grandes mitos da humanidade, incluindo as grandes religiões. Para se tornar um herói, a personagem recebe um “chamado”, tenta rejeitá-lo, é obrigada finalmente a aceitar a missão, viaja, passa por alguma provação, encontra alguém ou algum objeto mágico que lhe forneça uma revelação, volta mais forte, vence o obstáculo inicial e, com isso, liberta os demais, ou lidera-os no caminho da redenção. Pense em seu herói favorito, ou na história de Moisés, Jesus, Maomé, Buda, e compare com o roteiro de Campbell.

Por que é sempre assim? Para Campbell, essa trajetória faz parte de nossa psique. Em nossa formação individual, passamos também por um enredo parecido. Somos os heróis de nossa história. Quando o obstáculo é feroz demais, ou quando nos perdemos no deserto, estabelece-se o quadro neurótico. Nesses casos, o remédio é indicado. Mas tomá-lo antes de ter a oportunidade de confrontar nossos demônios é desperdiçar a oportunidade de crescer.

Marvin Minsky, um dos pais da inteligência artificial e pesquisador do MIT, nos EUA, uma das universidades mais renomadas do mundo, resumiu a questão de forma precisa. “Se pudéssemos deliberadamente controlar nossos sistemas de prazer, seríamos capazes de reproduzir o prazer do sucesso sem a necessidade de realizar coisa alguma – e isso seria o fim de tudo.”

3. A alegria ou a vida


É durante as fases de depressão que surgem os questionamentos que despertam a criatividade da pessoa atormentada.

Um terceiro ponto de defesa da tristeza vem da teoria evolucionista. Os sentimentos negativos, como angústia, tristeza e pessimismo, fazem parte de nossa natureza. A seleção natural os favoreceu porque, se não os tivéssemos, seríamos presas fáceis de adversidades. Imagine um homem pré-histórico extremamente feliz e despreocupado, saindo desarmado no meio da selva. Se esse ancestral existiu algum dia, ele morreu, provavelmente comido por um grande felino. O que sobreviveu, e deu origem à espécie humana, foi seu primo preocupado, atento – por vezes angustiado e rabugento. É assim com todos os animais. O estado de tensão é uma condição necessária à vida.

No livro Felicidade, o economista Eduardo Giannetti aponta outros riscos que o contentamento exagerado traria para a sobrevivência da civilização. Segundo Giannetti, a invenção de uma pílula que provesse todos os cidadãos de felicidade provocaria danos irreparáveis ao mundo. Na ausência de sentimentos negativos como culpa, vergonha, remorso e arrependimento, todos eles neutralizados pelo tal remédio, haveria um enfraquecimento do respeito às normas morais de convivência. As pessoas não se sentiriam psicologicamente inibidas para praticar atos terríveis porque, ao tomar a pílula, deixariam de sentir culpa ao prejudicar alguém. O resultado seria o caos completo, que muito provavelmente resultaria no aniquilamento do mundo tal qual o conhecemos.

4. A angústia dos gênios


As pessoas não têm paciência para a infelicidade. Num mundo altamente competitivo, estar triste pode ser interpretado como um sinal de fraqueza, e isso ninguém quer

O ponto mais polêmico dos novos defensores da tristeza é o vínculo entre realização criativa e a angústia. Não se trata, aqui, de defender um pouco menos de felicidade. É o próprio poder de um estado melancólico que está sendo reavaliado. Não faltam exemplos de pensadores, artistas e realizadores estimulados por estados de depressão, angústia ou tristeza – constante ou, ao menos, temporária. Do presidente americano Abraham Lincoln, que aboliu a escravidão e venceu a Guerra de Secessão, autor de alguns dos melhores discursos políticos da História, a Woody Allen, que diz ter dirigido dezenas de filmes sob o signo da melancolia, de John Lennon a Elis Regina, de Fernando Pessoa a Salvador Dalí, os casos se multiplicam.

Teriam eles produzido o que produziram se não fossem atormentados? Ludwig van Beethoven teria composto a Nona Sinfonia se, em vez de usar a música para aquietar o espírito, tomasse antidepressivos? Beethoven era uma espécie de infeliz crônico, mal que foi agravado por seu problema de surdez. O brasileiro Alberto Santos Dumont desenhava projetos de aeronaves quando estava triste. Segundo seus biógrafos, é provável que ele sofresse de depressão profunda.

“Há estudos que comprovam a relação entre as oscilações de humor e a criatividade”, afirma Luiz Alberto Hatem, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria. “Van Gogh e Wagner, quando deprimidos, produziam menos obras artísticas, mas de maior qualidade. É durante as fases de dor e depressão que surgem as produções mentais, os questionamentos que não povoam a vida mental habitual.”

Uma das idéias que Giannetti discute em seu livro é que a felicidade completa pode trazer paz e alívio, mas ao custo de aniquilar o que a humanidade tem de melhor – a capacidade de criar, ousar e experimentar. É uma reflexão derivada de um famoso dito do filósofo inglês John Stuart Mill: “É melhor ser um Sócrates insatisfeito que um porco satisfeito”.

A reflexão pode ser estendida até para países. Em seu ensaio A Democracia na América, publicado em 1835 e 1840, o pensador francês Aléxis de Tocqueville escreveu, numa comparação entre a agitação dos Estados Unidos e a letargia européia: “Chega-se a pensar que a sociedade (européia), tendo consolidado todas as benesses, não anseia por mais nada, exceto descansar e usufruir o que conquistou”. O direito à busca da felicidade está inscrito na Declaração da Independência dos Estados Unidos. É uma formulação sábia. Essa busca parece tornar as pessoas mais ativas. É um estado diferente do de quem já está contente.

Esta é, aliás, uma filosofia que impregna o mundo do trabalho. A frase mais célebre do fundador da empresa de chips Intel, Andrew Grove, é: “Só os paranóicos sobrevivem”. Refere-se a um mundo de tanta concorrência que, se você não está atento o tempo todo, é ultrapassado.

Desde os anos 90, isso se traduziu no mundo do trabalho em dois conceitos onipresentes. O primeiro é o combate à “zona de conforto”. Esta seria aquela situação em que o profissional está tão bem que não se sente desafiado a progredir. Daí, também, outro célebre jargão do mundo do trabalho: o de que as pessoas devem ser motivadas por desafios. O segundo é a idéia do “estresse positivo”. É um conceito que veio da medicina. Assim como descobriram que existe um colesterol bom e um colesterol ruim, os pesquisadores também identificam um estresse positivo – que leva à ação -, oposto do estresse negativo, que traz a apatia. Entre um e outro, em geral, a diferença é o tamanho do desafio, diante das condições para realizá-lo.

Na vida prática, portanto, já se sabe que um porcentual de tristeza, estresse, angústia é necessário para realizar um bom trabalho. E por que um bom trabalho é preferível a um trabalho medíocre, sem sofrimento? Para muita gente, não é. Mas é importante lembrar que felicidade não é nosso único ideal. Queremos todos ser felizes, claro, mas também queremos deixar um legado, educar bem os filhos, vencer uma competição ou outra. Cabe a cada um traçar seus objetivos, e entender quanto de sacrifício eles podem demandar.

Nessa equação, tornar-se refém da felicidade é um erro. Vivemos numa sociedade imediatista, que nos impõe uma urgência em resolver os problemas de forma rápida e prática, sem ter de suportar a dor e a tristeza. “As pessoas não têm paciência para a infelicidade”, diz o filósofo Renato Janine Ribeiro. “Num mundo altamente competitivo, estar triste pode ser interpretado como sinal de fraqueza, e isso ninguém quer.” A busca da felicidade tem o potencial de nos tornar infelizes.

O conselho de Diener para nos orientar é: “Seja um pouco como a Mona Lisa”. Ele diz que uma recente análise das expressões da mais famosa pintura de Leonardo da Vinci estabeleceu que seu sorriso enigmático revela 83% de felicidade e 17% de infelicidade. É justamente nesse espaço de tristeza, diz Diener, que reside seu poderoso encantamento.

Ela não quer parar

Carla não consegue se livrar da pílula mesmo sem precisar dela

A auditora financeira paulistana Carla Bednarek, de 32 anos, não consegue parar de tomar antidepressivos, apesar de seu médico garantir que não há mais necessidade. Sua história com a depressão começou em 2006. Ela trabalhava duro em uma empresa havia sete anos, sem ter muitas vezes tempo para almoçar. Nesse mesmo ano, casou-se. “Minha rotina mudou muito. Passei a ter uma casa para administrar”, diz. Em meio ao estresse diário, sofreu um assalto à mão armada. Pior: descobriu um tumor no seio. Carla precisou fazer uma cirurgia. “Medo e insegurança tomaram conta de mim. Cismei que estava sendo seguida na rua, não conseguia comer nem dormir direito”, afirma.

Acabou pedindo demissão da empresa. “A vida não fazia sentido para mim. Um psiquiatra diagnosticou depressão e receitou um medicamento à base de fluoxetina. Em dois dias eu estava às gargalhadas”, diz. Hoje, ela vive bem, trabalha em casa e tem um filho de 1 ano. Mesmo estável, ela teme parar com o remédio. A auditora justifica o uso ao dizer que o antidepressivo a ajuda a não ficar mal-humorada no dia-a-dia ou aborrecida com algumas questões. O médico insiste para que ela pare. A família também pressiona. “Uma tia me perguntou se eu não tenho vergonha de continuar tomando. Mas eu não sei se quero parar. Estou muito feliz. Sem essa pílula eu não sou nada.”

Ela não pode parar

Os antidepressivos ajudam Gilda a amenizar os sintomas do câncer

A professora carioca Gilda Grumbach, de 67 anos, começou a sentir os sintomas mais fortes de depressão por volta dos 50 anos. Mas acredita que era algo que a acompanhava desde a juventude. “Sempre fui muito preocupada com tudo, estressada e hipocondríaca”, diz. Fez uma viagem à Europa e perdeu o controle emocional. “Fiquei sem referências, me senti insegura e com medo de tudo.” De volta ao Brasil, sentiu-se muito pior. A angústia era fortíssima, sem motivo aparente. “Eu só tinha pensamentos negativos. Para mim, toda e qualquer coisa daria errado. Eu pensava na morte o tempo todo”, afirma.

Gilda resolveu procurar um psiquiatra, que receitou um antidepressivo. De dez anos para cá, diz ter melhorado muito, a angústia sumiu. Logo depois que começou a tomar o medicamento, descobriu que tinha um câncer no seio, que foi extirpado. Mais recentemente, a doença atingiu seus ossos. Faz tratamento e mantém o câncer controlado. “Os médicos acreditam que o motivo de eu estar bem é o antidepressivo. Apesar de estar doente, não fico deprimida. O estado psicológico do paciente é tudo nesses momentos”, diz. Gilda terá de tomar o antidepressivo pelo resto da vida. Ela não vê problema nisso. “Graças ao remédio, sinto-me viva. Durante esse tempo, pude continuar a trabalhar, agora estou me aposentando. Quero ainda viajar e curtir meus netos”, afirma.

A depressão impulsiona a criatividade

Ao longo da História, gênios realizaram suas grandes obras em estado extremo tormento. Descobriu-se recentemente a ligação entre a depressão e a criação. Os criadores, quando estão deprimidos, são capazes de grandes feitos. É nessa hora que eles produzem menos e com maior qualidade – e alcançam a maestria

→Ludwig Van Beethoven (1770-1827)
Um dos maiores gênios musicais da História, o compositor erudito alemão era atormentado pela depressão, agravada por seu problema de surdez e por amores impossíveis que colecionava.

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Friedrich Nietzsche (1844-1900)
O filósofo alemão era depressivo e suicida. Aos 40 anos, teve crises de loucura, sendo internado em um sanatório. A doença não o abandonou até a morte.

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Vincent Van Gogh (1853-1890)
O pintor holandês sofreu de depressão durante toda a vida. Expressava seu desequilíbrio nas pinceladas irregulares e cores sombrias que marcaram algumas de suas fases. Matou-se com um tiro no peito.

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Edvard Munch (1863-1944)
Sofreu de depressão e foi internado em um sanatório. Chegou a dizer que sua saúde mental era a catalisadora de sua pintura. O quadro O Grito é um ícone do expressionismo.

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Alberto Santos Dumont (1873-1932)
Suspeitou-se que o aviador tivesse esclerose múltipla ou depressão profunda. Mas ele sofria de bipolaridade. Os transtornos constantes o levaram a cometer suicídio.

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Fernando Pessoa (1888-1935)
Triste e melancólico na vida e na obra, o escritor português multiplicou seu “eu” em diversas personalidades literárias. O Livro do Desassossego é o retrato dessa depressão. Entregou-se à bebida e morreu de complicações hepáticas.

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Clarice Lispector (1920-1977)
No fim da década de 60, com o filho doente de esquizofrenia e em dificuldades financeiras, a escritora caiu em depressão. A melancolia se reflete em seus escritos.

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João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
O escritor pernambucano, autor de Morte e Vida Severina, sofria de uma doença degenerativa que lhe causava depressão. Era atormentado por uma constante dor de cabeça e sua segunda mulher, Marly, o ajudava a escrever.

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Woody Allen (1935-)
Em 2005, o diretor americano deu entrevistas dizendo que fez mais de 30 filmes como uma forma de “distração” contra uma forte depressão que tem desde muito jovem.

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Janis Joplin (1943-1970)
A cantora americana de blues sofria de depressão desde a adolescência, quando foi alvo de piadas dos colegas. Dizia que cantar era sua salvação. Bebia muito. Morreu por overdose de heroína.

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Jim Morrison (1943-1971)
O vocalista do grupo The Doors vivia em depressão, o que se refletia em suas letras. Era fã de Nietzsche. Nos shows, bebia e xingava a platéia. Quando soube da morte de Janis Joplin, disse que seria o próximo. Foi encontrado morto numa banheira, em Paris.

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Elis Regina (1945-1982)
Sofria de bipolaridade, alternando depressão e euforia. A maior intérprete da música brasileira morreu de overdose de cocaína com álcool.

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DAVID COHEN, AMAURI SEGALLA, KÁTIA MELLO E MARTHA MENDONÇA

Fotos: shutterstock.com, Marcelo Min/Ag. Fotogarrafa/ÉPOCA e André Valentim/ÉPOCA, Bettmann/Corbis/Latin Stock, Hulton Archive/Getty Images, The Morgan Library & Museum/AP, Carl de Souza/AFP, arq. Ed. Globo e arq. Ag. O Globo, arq. Ed. Globo, arq. Folha Imagem (2), Marcel Hartmann/Sygma/Corbis/Latin Stock, Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latin Stock, Joel Brodsky/Corbis/Latin Stock e Gil Passarelli/Folha Imagem

:: ENTREVISTA :: 28/04/2007

A infelicidade é necessária

Um autor americano se insurge contra o que considera o uso excessivo de drogas para curar a tristeza. E diz que a dor deve fazer parte do cotidiano.

Na década passada, o número de prescrições de psicotrópicos aumentou 40% nos Estados Unidos. Espantado com esse dado, o médico e cientista político americano Ronald W. Dworkin lançou um livro polêmico, em que questiona se esse aumento se deve a uma necessidade real ou a uma tendência de tentar suprimir, à base de comprimidos, a tristeza do cotidiano. Em Felicidade Artificial (Planeta, R$ 39,90), recém-lançado no Brasil, Dworkin condena a falsa sensação de paz que os medicamentos trazem e prega a importância da dor para alcançar a verdadeira felicidade.

“A prescrição de antidepressivos para crianças rouba delas uma experiência psicológica importante: estar infeliz às vezes.”

O que o senhor define como felicidade real e artificial?
Ronald W. Dworkin
A felicidade real é a sensação que as pessoas têm quando vivem do modo que querem (ou pensam que deveriam). Alguém que aspira a ser um atleta será infeliz como médico, e vice-versa. A maioria quer sucesso, dinheiro, amor, amigos e um trabalho interessante. A felicidade artificial é aquela que não combina com os fatos da própria vida. A pessoa anda mal das pernas, não está vivendo como gostaria – ou como pensa que deveria estar vivendo – e ainda assim, por meio de remédios, tem a sensação de felicidade.

Quem toma esses remédios distingue a felicidade real da artificial?
Dworkin
Não, porque as sensações são similares. Isso as confunde. As pessoas estão acostumadas a se sentir felizes quando as coisas tomam o melhor rumo e se surpreendem sentindo-se ótimas quando as coisas na verdade estão indo mal. A felicidade artificial induzida por drogas pode ser desorientadora, a tal ponto que, quando morre um amigo ou parente, a pessoa não consegue reagir apropriadamente. Houve quem confessasse para mim ter tido de suspender a medicação para sentir tristeza em situações assim.

Teoricamente, qualquer traço de tristeza cotidiana poderia ser tratado como doença. Ninguém seria “feliz”, por esse padrão?
Dworkin
Esse é o problema: não restaria muito. A infelicidade é parte da condição humana. Se a tristeza cotidiana é uma doença, então todo mundo é candidato a um tratamento. Isso explica por que um americano em cada quatro, hoje, toma antidepressivos.

No livro, o senhor afirma que a falta de certos neurotransmissores pode ser conseqüência, e não causa, da tristeza ou da depressão. Se é assim, faz sentido usar antidepressivos ?
Dworkin
Os médicos começaram a pensar nesse assunto partindo da idéia de que a infelicidade vinha dos fatos da vida. A atenção deles mudou para o cérebro, depois para os neurônios, daí para as sinapses e então para os neurotransmissores. Raciocinando fora de ordem, eles concluíram que todo o problema da infelicidade está nos neurotransmissores. Colocaram o menos importante – os neurotransmissores – na frente, e o mais importante – a vida – no final. Todo o entendimento deles sobre vida e felicidade se perdeu.

Se os remédios estão disponíveis, a felicidade vira uma obrigação social? Perde-se a tolerância à infelicidade?
Dworkin
Sim. A vida é corrida, o trabalho dura longas horas e sente-se que é uma perda de tempo aconselhar um amigo infeliz. Espera-se que o amigo infeliz tome conta de seu problema “profissionalmente”, por meio da felicidade artificial. Mas não sei dizer se essa intolerância veio antes e a felicidade artificial ofereceu uma solução, ou se essa felicidade artificial permitiu que essa intolerância se revelasse.

No livro Felicidade: uma História (Editora Globo), o historiador Darrin M. McMahon diz que é recente, na sociedade, a idéia de que a felicidade é um direito. O senhor concorda? Essa mudança está relacionada ao fácil acesso às “pílulas da felicidade” ?
Dworkin
Eu sou mais preciso em minha acusação, e não relaciono isso ao acesso fácil às “pílulas da felicidade”. No século XIX, ao menos nos Estados Unidos, nem a religião organizada nem a profissão médica estavam engajadas em ajudar pessoas infelizes a encontrar a felicidade. A vida era dura, e não havia muito o que a religião e a medicina pudessem fazer. Os religiosos tentavam apenas explicar por que havia infelicidade; os psiquiatras restringiam sua atenção a pacientes de clínicas; as pessoas comuns apenas lidavam com a infelicidade sozinhas. A partir dos anos 50 do século passado, tudo mudou. A religião e a medicina – com a psicoterapia – entraram no problema da infelicidade ao mesmo tempo, como rivais. Quando essas poderosas instituições disseram às pessoas que a felicidade era uma questão importante e que era um direito, uma nova consciência de felicidade nasceu. O crescimento dos psicotrópicos nos anos 70 tornou possível aos médicos ganhar da religião na administração da infelicidade, mas o conceito de felicidade como direito já tinha se firmado.

Se uma pessoa é infeliz, o antidepressivo não pode ajudá-la a se motivar e mudar de vida?
Dworkin
Em teoria, sim. Mas isso engendra outro problema. Pessoas com felicidade artificial às vezes decidem sem clareza na mente. Muitas das que eu entrevistei tomaram decisões prioritárias da vida (como deixar um emprego e pedir o divórcio) porque a felicidade artificial silenciou os medos e a cautela natural; tornou-as inconseqüentes. Se encontraram felicidade no futuro, foi mais uma questão de sorte que o fruto de um planejamento cuidadoso.

A infelicidade é necessária?
Dworkin
Sim, da mesma forma que a dor pode ser necessária. Derrube uma panela de água fervente, e sua mão vai recuar. Não fosse isso, você poderia ter queimaduras sérias. Às vezes, precisamos passar por um forte período de infelicidade para mudar nossa vida. A felicidade artificial pode roubar esse impulso vital e manter as pessoas estagnadas em uma “felicidade envergonhada”. Uma mulher que entrevistei se manteve em um relacionamento morto por um ano porque a felicidade artificial impediu que ela criasse coragem para mudar o que a fazia infeliz. Outra permitiu que suas finanças ficassem em pedaços porque a felicidade artificial impediu que sentisse o medo necessário para mudar as coisas.

O senhor alerta em seu livro sobre o fato de a nova geração já crescer na felicidade artificial. Quais são as possíveis conseqüências para a sociedade?
Dworkin
A prescrição de antidepressivos para crianças cresceu há pouco tempo e acredito que seja muito mais prejudicial do ponto de vista sociológico que o uso em adultos. É parte do desenvolvimento que crianças estejam infelizes às vezes. Roubando essa experiência psicológica, podemos produzir um vasto número de crianças que crescem pensando que a felicidade não vem do cotidiano, mas da medicina. Pessoas que não precisam de nada de ninguém e que não esperam nada em troca são perigosas.

O senhor também menciona como perigoso o que chama de “obsessão pelo fitness”. Por quê?
Dworkin
Muitas pessoas com vida problemática passam horas malhando, todos os dias. Enquanto sua vida real está em pedaços, elas malham na academia, em uma alienação proposital, pensando que ter um bíceps bem definido é sinal de que fizeram algo importante. O que é triste nisso tudo: pessoas malhando compulsivamente sozinhas, em uma espécie de bolha, trocando pela felicidade artificial encontrada com o fitness a chance de uma felicidade real.

MAÍRA TERMERO, da Revista Criativa
Foto: divulgação

FONTE (Texto e Entrevista): Revista Época

“O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido faz secar os ossos” [PROV 17:22]

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Quem sou eu?
Aspiro com o dia em que não incomodarei as pessoas com minha sinceridade. No dia em que as pessoas não terão medo e nem vergonha de expor sua essência – dizer o que realmente pensam e querem. O fim da hipocrisia, do sujeito oblíquo. Com calma caminho em busca de um futuro melhor, e não espero por coisas fáceis. Sou chata, brega, amiga, leal, fiel, prestativa, distraída, esquecida, impulsiva, falante, extravagante, extrovertida, medrosa, extremamente ansiosa, normalmente curiosa e tolerante, as vezes envergonhada. Mensageira da esperança, da palavra amiga. Admiro quem anda sozinho, mas não consigo. Fico feliz quando vejo um sorriso, quando o sonho se torna realidade mesmo q não seja meu. Satisfeita ao ver um casal de velhinhos em um restaurante, de mãos dadas. Choro quando assisto TV, quando sofro decepção, quando decepciono alguém e por saber que o mal está solto. Mas tranquila e muito feliz por saber que acima de tudo Deus existe, que é Amor, Justo, Fiel, Onipotente e Onipresente. Não tenho a família de meus sonhos, porém tenho força de vontade para criar uma, todos os passos são cuidadosamente analizados e percebo hoje que estou em uma posição muito a frente dos meus sonhos mais simples. Com a Graça de Deus Celestial. E com a certeza que Deus nunca me abandonou! Com a benção Dele, sinto que realizarei e viverei mais que sonhos. Desejo ver meus filhos crescer e que sejam felizes, ter mais filhos e adotar quando possível. Quero uma família grande, unida e repleta de paz e amor. Desejo que as pessoas conheçam a Paz, o Amor e o Poder que somente nosso Deus tem e pode nos dar. Desejo uma casa, no quintal: animais e um pé de jambo. Bem longe do Rio de Janeiro. Mas Deus sabe o que é melhor para mim. Afinal, sou mais que uma vencedora! Fui escolhida em uma corrida de milhões, fui vitoriosa e gerada. Gerei filhos saudáveis e lindos, perfeitos aos olhos de Deus, aos meus olhos... e verdadeiros Presentes Divinos em minha vida.

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